Um livro que pôs em xeque a coexistência entre o catolicismo e o comunismo


02/01/2013

Juan Gonzalo Larrain Campbell


Fidel Castro é recebido pelos bispos na Nunciatura de Havana, em 1967

Há 50 anos, Plinio Corrêa de Oliveira escrevia em Roma a obra A Liberdade da Igreja no Estado Comunista, denunciando o mais grave perigo que se apresentava para a Igreja no Concílio Vaticano II: a coexistência pacifica entre católicos e comunistas.1 Lamentável reação de Padres Conciliares aos quais o autor ofereceu a obra na Magna Assembleia.

Muito se tem escrito, sob diversos pontos de vista, sobre o Concilio Vaticano II. E muito também se tem escrito e falado a respeito das calamidades pós-conciliares, reconhecidas de um ou outro modo até pelos próprios Pontífices, de Paulo VI a Bento XVI.2

Porém, pouco se tem tratado do ensaio A Liberdade da Igreja no Estado Comunista, redigido pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 1962, durante a primeira fase do Concilio, o qual poderia ter evitado as referidas calamidades.

O comunismo muda de tática

O principal inimigo que a Igreja tinha diante de si, pelo menos a partir da Revolução russa de 1917, era o comunismo. Até o início do Concílio, ele havia dominado imensas populações do mundo pela força, perdendo assim, pela aplicação de sua doutrina perversa, milhares de almas.

Até meados da década de 30, o comunismo combateu a Igreja de frente, encontrando por parte das autoridades eclesiásticas, encabeçadas pelos Papas, uma oposição aberta e declarada.

Mas, a partir dessa época, constatando a resistência que se lhe opunha, somada à falta de persuasão de suas doutrinas junto à opinião pública, tanto nos países por ele subjugados como nas nações do mundo livre, o comunismo viu-se obrigado a mudar de tática, estendendo a mão às diferentes religiões, e de modo particular à católica.3 Em diversos países, os comunistas começaram então a propor um modus vivendi ou coexistência pacífica sob certas condições, sendo a principal delas a aceitação (explicita ou tácita), por parte dos católicos, da supressão da propriedade privada.

Assim, o problema que se vinha pondo para a Igreja era saber qual a atitude a tomar face à “abertura” que o comunismo oferecia. Deveriam os católicos aceitar o modus vivendi ou resistir?4

Viagem de Dr. Plinio a Roma e seu estado de espírito

Desde 1935 Plinio Corrêa de Oliveira começou a desconfiar que o grande problema que se poria para a Igreja e para os fieis no futuro seria o que acima está resumido, pois ele percebia já naquela época — como relatou em palestra para membros da TFP em 25-6-88 — que nos meios católicos só se falava contra o comunismo ateu, omitindo-se qualquer referencia à supressão da propriedade privada.5

Se esse era o problema, não haveria ocasião mais propícia que o Concílio para que todos os Bispos do mundo, encabeçados pelo Sumo Pontífice, denunciassem e condenassem o referido modus vivendi e a coexistência pacífica.

Com esse fundo de quadro Dr. Plinio viajou a Roma em 1962, por ocasião da primeira sessão do Concílio. Muito significativas do estado de espírito que o animava são as seguintes palavras escritas a sua queridíssima mãe: “Esta viagem é fruto de longas reflexões. [...] De um lado, jamais o cerco dos inimigos externos da Igreja foi tão forte, e jamais também foi tão geral, tão articulada, tão audaciosa a ação dos seus inimigos internos. De outro lado, sei bem que posso prestar serviços muito úteis para ajudar a sustentar o edifício da Cristandade [...] Eu não poderia jamais, sob consideração nenhuma, renunciar a prestar à Igreja, à qual dediquei minha vida, este serviço numa hora histórica quase tão triste quanto a da morte de Nosso Senhor”.6

LÓGICA

O escritor Ubiratam Macedo, que reconhece não se identificar ideologicamente com Dr. Plinio, afirma: “Em 1963, Plinio editou um folheto(sic!) que foi traduzido para oito línguas e já superou de muito 100.000 exemplares. Trata-se de A Liberdade da Igreja no Estado Comunista...

Nele, após tratar com lógica radical do tema, conclui que não seria lícito, mesmo para evitar uma hecatombe nuclear, desistir do direito de propriedade, pois a existência humana sem instituições necessárias, como a propriedade e a família, não vale a pena ser vivida. Sacrificar uma ou outra para evitar a catástrofe não importa em propter vitam vivendi perdere causa? Portanto, rejeita-se a coexistência pacifica, salvo se o comunismo deixar de sê-lo”.

_________________
(Cfr. Ubiratam Macedo, As ideias políticas no Brasil, Convívio, São Paulo, 1979, vol.2 pp. 241-242).

Numa noite redige o ensaio e oferece-o aos bispos


Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em Roma, acompanhado de alguns colaboradores na época do Concílio

Após ter tomado contato com certo número de bispos, alguns dos quais representavam Episcopados de países além Cortina de Ferro, confirmou-se no espírito de Plinio Corrêa de Oliveira a hipótese que já cogitara desde 1935.

Foi assim que, numa só noite, ele escreveu o livro A Liberdade da Igreja no Estado Comunista, no Hotel Excelsior, em Roma, onde se hospedava. De manhã mandou traduzi-lo ao italiano, e o apresentou no dia seguinte pessoalmente ao arcebispo ucraniano no exílio, Mons. Bucko. Este, em princípio, gostou da tese e da proposta feita por Dr. Plinio, mas disse que teria que ouvir o parecer dos irmãos no Episcopado, de modo especial do Leste europeu.

Em contato posterior, Mons. Bucko afirmou a Dr. Plinio que os bispos consultados sobre a difusão do livro na Magna Assembleia — e assinado por um deles como havia sido sugerido — consideraram a iniciativa inoportuna.7

A proposta de Dr. Plinio não era apenas uma simples condenação do comunismo — que também não foi condenado... — mas, de modo muito claro e específico, uma denúncia da manobra sutil e cavilosa da Revolução igualitária,8 que procurava embair os católicos para que aceitassem um modus vivendi com o comunismo, tanto nos países por ele dominados como nos do Mundo Livre.

Tese central e conclusão do livro


Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

Devido ao caráter necessariamnte restrito de um artigo, transcrevemos a tese central da obra:

Mas imaginemos que se Lhe desse [à Igreja] toda a liberdade de pregar sobre a família, não porém sobre a propriedade privada. O que então teríamos que responder?

A primeira vista dir-se-ia que a missão da Igreja consiste essencialmente em promover o conhecimento e o amor de Deus, mais do que em preconizar ou manter um regime político ou social. E que as almas podem conhecer e amar a Deus sem serem instruídas sobre o principio da propriedade privada. Isto nos parece falso. O conhecimento e o amor da Lei é inseparável do conhecimento e do amor de Deus. A Lei por sua vez é um todo, do qual não nos é dado destacar qualquer parcela. Ora, o principio da propriedade privada está consignado em dois mandamentos da Lei de Deus (não roubar e não cobiçar os bens alheios). Renunciar a ensiná-lo aos fiéis seria, para a Igreja, o mesmo que renunciar a promover nos homens o conhecimento e o amor de Deus. [...]

Com efeito, sem senso de propriedade não há senso de justiça. A Igreja se renunciasse a formar nos fieis a noção exata da propriedade, renunciaria a formá-los na justiça.

De mais a mais o mandato de Jesus Cristo à sua Esposa consiste em pregar a Lei inteira a todos os povos, em todos os tempos. Se algum governo terreno exige d’Ela o contrário como condição para ser livre, Ela não poderá aceitar essa liberdade que não é senão um simulacro falacioso.

E o autor conclui seu livro com estas palavras:

Para aniquilar as vantagens que, no Ocidente, o comunismo já vem alcançando com seus acenos de uma certa distensão no terreno religioso e social, é importante e urgente esclarecer a opinião pública sobre o caráter intrínseco e necessariamente fraudulento da ‘liberdade’ por ele concedida à Religião, e sobre a impossibilidade da coexistência pacifica de um regime comunista — ainda que moderado — com a Igreja Católica.9

Devido à negativa de um dos Padres Conciliares de assinar a obra, como vimos acima, Dr. Plinio mandou publicá-la em seu próprio nome, como matéria paga, no diário “Il Tempo”, de Roma, em 1963. E dado o interesse da mesma, em 1964 o autor a ampliou, mantendo a tese central e a conclusão. Sua primeira edição foi distribuída aos 2200 Padres Conciliares, difundindo-se a partir daí pelo mundo inteiro.10

Eco fidelíssimo de todos os Documentos Pontifícios

Em carta enviada no dia 2 de dezembro de 1964 ao então bispo de Campos, D. Antonio de Castro Mayer, para lhe agradecer o envio do livro do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, a Sagrada Congregação de Seminários e Universidades referiu-se ao autor como “merecidamente célebre por sua ciência filosófica, histórica e sociológica”, e que A Liberdade da Igreja no Estado Comunista “é um eco fidelíssimo de todos os Documentos do Supremo Magistério da Igreja”.

A carta era assinada pelo Prefeito da Congregação, Cardeal G. Pizzardo, e referendada pelo Secretario da mesma, Mons. D. Staffa, depois Cardeal.

O Concílio chegou a seu fim sem que os Padres Conciliares tratassem do ponto de principal interesse para a Igreja...

Grave dano causado à Revolução

Se é verdade que grande parte do clero adotou, de um modo ou outro, a política de coexistência pacífica com o comunismo, propiciando, entre outros erros, as reformas de estrutura confiscatórias violadoras da propriedade privada, não é menos verdade que com este livro Dr. Plinio desmascarou mais um jogo da Revolução.

Ele havia sido precedido pela obra Reforma Agrária – Questão de Consciência e constituía outro importante lance na luta contra o progressismo travada pelo seu autor ou inspirada por ele nas décadas seguintes através das TFPs e entidades afins existentes nos cinco continentes. Hoje, no Brasil, a luta antiprogressista, inspirada na ação daquele insigne líder católico, é conduzida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira.

Tirando a máscara da Revolução, Dr. Plinio produziu grandes cristalizações antiprogressistas, que impediam assim aos revolucionários de persuadir seus seguidores. Deste modo a Revolução foi obrigada a realizar retrocessos táticos, operados inclusive em altas esferas eclesiásticas.11

Desde o ponto de vista temporal, o comunismo viu-se na necessidade de se metamorfosear, muitas vezes trocando de nome, ou chegando, em certas ocasiões, a fingir-se de morto... Tudo isto tem tornado pedregoso o caminho da Revolução. Não negamos que ela tenha avançado, e muito, sob vários aspectos, mas extrapola os limites deste artigo apontar seus êxitos e seus fracassos.12


Cardeal Wyszynski

AUDÁCIA

O escritor Decio Monteiro de Lima, que discorda das ideias de Dr. Plinio, escreve: “Em agosto de 1978, também com bastante audácia, a TFP entrou abertamente no problema da escolha do sucessor de Paulo VI, sugerindo — leia-se “prevendo” —, através de artigos de Plinio Corrêa de Oliveira, publicados no País e reproduzidos em jornais europeus, a indicação do Cardeal Wyszynski, Primaz da Polônia, ao Sumo Pontificado, assim que pressentiu o esboço de uma tendência, depois confirmada com a eleição do Cardeal Wojtyla, no sentido de fazer Papa um católico do Leste europeu. Tais artigos tiveram muita circulação entre os cardeais presentes ao conclave e grande repercussão na Sala Stampa (Sala de Imprensa) do Vaticano, onde o Ufficio Tradizione, Famiglia, Proprietá, escritório de representação das TFPs em Roma, atua com muita desenvoltura”.

__________________
(Cfr. Decio Monteiro de Lima, Os senhores da direita, Antares, Rio de Janeiro, 1980, págs. 52-53).

A omissão, o castigo e a esperança

Temos como certo que muitas calamidades pós-conciliares poderiam ter sido evitadas — e talvez com elas, pelo menos parte dos castigos anunciados por Nossa Senhora em Fátima — se os Padres Conciliares tivessem sustentado as teses que de modo profético lhes foram facilitadas no estudo A Liberdade da Igreja no Estado Comunista.13

Sirvam estas linhas de homenagem a quem, fiel à sua missão, foi “um eco fidelíssimo de todos os documentos do Supremo Magistério da Igreja”. E as encerramos com as palavras por ele pronunciadas em 1989: “Para onde iremos? — Só Deus o sabe. Quem cumpre seu dever faz a vontade de Deus. Quem faz a vontade de Deus sob os auspícios de Maria Santíssima, só pode considerar o futuro com confiança”.14

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Notas:
1. Todas as obras de Plinio Corrêa de Oliveira citadas neste artigo podem ser encontradas no site www.pliniocorreadeoliveira.info
2. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra Revolução, Parte III, Cap.II, 4-A.
3. Esta falta de persuasão ficou patente no fato de o comunismo nunca ter conquistado o poder pela via das urnas.
4. O país que serviu de “cadinho” principal para levar adiante essa política “coexistencialista” revolucionária foi a Polônia.
5. Em 1946, pelas páginas do “Legionário” (“7 dias em revista”, de 22-12-46), e em 1959 em Revolução e Contra Revolução (Parte II – Cap. XI-1-B), denunciou o cerne do tema que ele desenvolveria por extenso em A Liberdade da Igreja no Estado Comunista.
6. Roberto de Mattei, O Concilio Vaticano II – uma história nunca escrita, p. 195, Editora Caminhos Romanos, Porto, Portugal.
7. É sabido que o homem-símbolo e líder principal dos bispos representantes da corrente partidária da “coexistência pacifica” era o Cardeal Wyszynski, Primaz da Polônia, o Cunctator (o Contemporizador). Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, O Cunctator um maximalista?, in “Folha de São Paulo”, 24-8-78.
8. As referências que fazemos a Revolução, revolucionário, etc., devem entender-se no sentido que lhes dá Dr. Plinio em sua obra Revolução e Contra-Revolução.
9. Plinio Corrêa de Oliveira, A Liberdade da Igreja no Estado Comunista, Catolicismo nº 152, agosto de 1963.
10. Traduzido em oito línguas, o livro teve 38 edições, totalizando 171.000 exemplares. Além disso, foi reproduzido na íntegra em 39 jornais ou revistas de 13 países. Cfr. Um homem, uma obra, uma gesta. Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira, p. 239. Edições Brasil de Amanhã.
11. Sobre os retrocessos táticos da Revolução, cfr. Plinio Corrêa de Oliveira Revolução e Contra Revolução Parte I Cap.4.
12. Sobre isso, cfr. op.cit. Parte III, Cap. II.
13. Sobre a vocação verdadeiramente profética de Dr. Plinio, cfr. Juan Gonzalo Larrain Campbell Plinio Corrêa de Oliveira, Previsiones y Denuncias em defensa de la Iglesia y de la civilización cristiana, Petrus Editora, 2009.
14. Um homem, uma obra, uma gesta, p. 57.
(*) Nas citações, os negritos são nossos.

Veja:
Revista Catolicismo

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