“Pai, não se faça a minha vontade, mas a tua”


17/03/2005

Plinio Corrêa de Oliveira

„Na Agonia o Anjo veio, como fruto da oração. Recebida sua visita, Nosso Senhor continuou a orar: sim, rezar mais insistentemente é o grande segredo da vitória. Quem reza se salva; quem não reza se condena, dizia Santo Afonso de Ligório. E como tinha razão! ‚Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito na verdade, mas a carne é enferma’“ (S. Mateus 26, 41).

Reproduzimos a seguir artigo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na revista Catolicismo em 1954, mas que conserva impressionante atualidade para os dias trágicos de nossa época. O autor ressalta que, nas ocasiões especialmente difíceis em que as forças parecerem nos faltar, devemos elevar nossos corações a Deus e rezar, na certeza confiante de que as graças não nos faltarão. Nosso Senhor no Horto das Oliveiras deu-nos esse sublime exemplo.

Tendo Jesus dito estas coisas, saiu com seus discípulos para a outra banda do ribeiro de Cedron, onde havia um horto, no qual entraram Ele e os seus discípulos” (S. João 18, 1)

Jesus deixa Jerusalém. Não se tratava de uma partida comum, seguida de breve retorno, mas de uma verdadeira e profunda separação.

O Messias amava a Cidade Santa, as suas muralhas cobertas de glória, o Templo do Deus vivo que nela se alteava, o povo eleito que a habitava. Por isto pregou-lhe a Boa Nova com especial carinho e combateu seus vícios com vigor particularmente ardente. Mas fora recusado. Deixava, pois, a cidade maldita.

Era noite. Jerusalém esplendia com todas as suas luzes. Havia calor e fartura dentro das casas e animação nas ruas. Uma grande despreocupação pairava sobre a cidade alegre e tranqüila. De Jesus, com toda a sua beleza, sua graça, sua sabedoria, sua bondade, pouco se lhe dava. No momento em que Ele deixou a Cidade, ninguém o sentiu, ninguém o soube, salvo talvez um ou outro transeunte que O viu com indiferença. Os judeus não sentiam necessidade de Jesus. Para dirigir suas almas, preferiam Anás, Caifás e seus congêneres. A velar por seus interesses nacionais, bastava-lhes Herodes. Toleravam Pilatos com um mau humor muito resignado. Sob a guarda desses pastores espirituais e temporais podiam comer, beber e divertir-se à vontade, consolando depois a consciência com uma oração e um sacrifício no Templo. Assim tudo se arranjava na modorra e no conformismo.

Para os adeptos da “vidinha”, Jesus perturbava a cidade

Jesus viera perturbar essa paz. Falara em morte, em juízo, em Céu e em inferno, sem compreender [os espíritos que rejeitavam sua missão, assim pensavam], que o século não comportava pregações destas, e que o primeiro dever de um rabi(1) consistia em adaptar-se às exigências do tempo. Conhecedor dos textos sagrados, hábil no raciocinar, exímio em impressionar as multidões e em atrair as pessoas na intimidade de seus colóquios persuasivos, parecia empenhado em mostrar uma incompatibilidade irremediável entre a Religião, de um lado, e a vida larga, despreocupada e sem freios do outro lado. Cindia assim as duas partes do arco, e cedo ou tarde provocaria ruínas. Isto [essa cisão] não Lhe importava, porque não era sensato. Acentuando o efeito perigoso de suas palavras, praticava milagres. E, apoiado no prestígio que estes Lhe conferiam, perturbava ainda mais os espíritos, ensinando-lhes que a estrada que conduz ao Céu é estreita, inculcando a necessidade da pureza, da honestidade, da retidão para nele entrar. Ele, que pregava a compaixão, não Se condoía das lutas de alma, dos dramas de consciência que assim desencadeava? Ele, que pregava a humildade, não reconhecia a necessidade de se conformar com o exemplo de prudência que os príncipes dos sacerdotes Lhe davam?

Uma ocasião, é verdade, pareceu na iminência de vencer. Mas o Sinédrio(2) agiu a tempo. Abrindo generosamente suas arcas, mandou que emissários percorressem o povo, despertando prevenções contra o insolente. Eram ágeis, esses emissários, e souberam tocar nas cordas psicológicas certas. As possibilidades do rabi estavam eliminadas. Jerusalém não seria sua. Mais: a sua morte estava assente, e o povo a aplaudiria. Essa morte era um último e insignificante corolário de tudo. Um pequeno episódio de polícia. Sim, o “caso” Jesus de Nazaré estava encerrado. O povo podia entregar-se novamente ao prazer, ao ouro, às longas cerimônias no Templo. Tudo voltara à normalidade. Sim, uma grande despreocupação tornava mais leve o ar, naquela noite farta e tranqüila.

Estava terminada a pregação de Jesus, e Ele deixava a cidade porque lá nada teria que fazer. Não era compatível com sua perfeição, associar-Se àquela tranqüilidade tépida e modorrenta em que dormiam as consciências que procurara despertar. A única atitude era sair. Sair, sim, para significar um alheamento completo, uma separação absoluta, uma incompatibilidade sem rebuços.

Jesus abandona Jerusalém, seguido pelos Apóstolos


A cidade de Jerusalém vista do Horto das Oliveiras

E saiu. Ficaram para trás as luzes, Ele entrava nas trevas da noite. Ficou para trás a multidão, Ele levava consigo apenas um punhado de seguidores. Ficou para trás tudo quanto era poder, riqueza, glória humana, Ele ia para um lugar ermo, pobre, seguido apenas de uns desconhecidos sem expressão social, sem qualificação cultural, sem nada. Ficaram para trás as alegrias da vida, Ele ia ao encontro da desolação dos abandonados, das angústias terríveis dos que esperam a morte.

“E disse a seus discípulos: assentai-vos aqui enquanto oro” (S. Marcos 16, 32).

O isolamento de Jesus era maior do que à primeira vista parece. Os Apóstolos O seguiam, é verdade. Mas com a alma cheia de apego a tudo quanto na terrível separação deixavam, e cheia de pavor diante de tudo quanto as perspectivas de futuro lhes faziam entrever. Sua alma já não tinha disposição para rezar: era o início da defecção, pois quem não reza está descambando para o abismo. Rezar, não podiam. Voltar a Jerusalém, não queriam. Ficaram “sentados ali”. E consentiram em que o Mestre fosse mais adiante, em que ficasse só. Os Apóstolos se consideravam por certo heróis, por ficarem “sentados ali”. Tanto sentiam sua dor, que não pensaram na do Senhor. Deixaram-se por isto esmagar pelo sofrimento. Sentados, daí a pouco dormiram, e logo mais fugiram!

Os Apóstolos não queriam participar da tristeza do Senhor

Não rezar, pensar pouco na Paixão de Cristo e muito em suas próprias dores, tudo isto leva a “sentar-se” no caminho e deixar Jesus ir para frente. Depois é a modorra, o sono, a tibieza. E depois a fuga.

Terrível! Terrível lição para os que encetaram a longa jornada no caminho da perfeição!

Jesus lhes dissera: “Orai para que não entreis em tentação” (S. Lucas 22, 40). Não oraram, sucumbiram...

“E tomando a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu consigo, começou a entristecer-Se e a ficar angustiado” (S. Mateus 26, 37).

Seleção. Alguns estavam menos embotados pela dor do abandono, da derrota, da separação total do mundo. Doía-lhes mais vivo o sofrimento de Jesus. Mereceram ser chamados de lado e presenciar o início das dores infinitamente preciosas do Redentor.

Quantos recebem o mesmo chamado! A graça os atrai para uma piedade maior, uma ortodoxia mais profunda, uma compreensão mais exata da situação terrível da Igreja em nossos dias. Para corresponder a essas graças, é preciso ter a coragem de participar da tristeza de Nosso Senhor, e para isto é preciso ter um espírito generoso, forte e sério.

Em nossa época: idolatria das bagatelas, da televisão, etc.


Recusa-se a graça recusando a tristeza de Nosso Senhor, vivendo para as bagatelas, idolatrando a modernidade

Como se recusa esta graça? Recusando a tristeza de Nosso Senhor, vivendo para as bagatelas, idolatrando o esporte, fazendo do rádio e da televisão o centro da vida, fazendo das piadas o único tema das conversas, fugindo de considerar os deveres terríveis que a época impõe e a gravidade dos problemas que suscita, para se engolfar na vidinha de todos os dias.

Estes não recebem a adorável confidência das dores do Coração de Jesus. São sapos que vivem com o ventre colado à terra, e não águias que cortam com seu vôo possante o mais alto dos céus.

“Então lhes disse: minha alma está em tristeza mortal: demorai-vos aqui e vigiai comigo” (S. Mateus 26, 38).

“A minha alma está”, diz o Salvador, e não “eu estou”. Quis Ele significar que o tormento em que estava era todo moral. A parte do corpo ainda não havia começado. Tanto se insiste, na Paixão, sobre as dores do Corpo, e isto é bom. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus veio insistir sobre as dores da alma de Cristo, e isto é ótimo. Pois as dores da alma são mais profundas, mais cruciantes e mais nobres que as do corpo. Elas se opõem mais aos defeitos da alma, e são estes os que ofendem a Deus.

Um discípulo de Cristo não vive de frivolidades

E do que sofria a alma de Cristo? Do que devemos sofrer nós? De ver a vontade do Padre Eterno violada, e Jesus, Nosso Senhor, recusado, negado, odiado. Pensar nisto, medir a extensão e a gravidade disto é sofrer em nós as dores espirituais de Nosso Senhor.

Jesus Cristo e sua Igreja formam um só todo. Cada vez que vemos um anúncio imoral, uma sentença errada, uma instituição ou uma lei oposta à doutrina da Igreja, devemos sofrer. Senão, se para isto não temos zelo nem forças, servimos tão somente para “ficar sentados”, e na hora do perigo fugir.

“Em tristeza mortal”. Isto é, em suma tristeza. A tristeza de ver a Lei violada, a Igreja perseguida, a glória de Deus negada, deve ser em nós uma tristeza suma, e não apenas uma dessas tristezinhas emotivas e passageiras como as que se desprendem das almas frívolas e impressionáveis, à maneira dos fogos fátuos de charcos e cemitérios.

Uma tristezinha de epiderme, que não arranca de nós resoluções sérias, zelo profundo, renúncia efetiva de tudo para só viver lutando. Uma alma em “tristeza mortal” não se consola com revistas, roupas, restaurantes, passeios, bagatelas honestas... ou desonestas! Ela viverá no pesar mortal da glória de Deus ultrajada, encontrando lenitivo só e só na vida interior e no apostolado.

Nosso Senhor pede a nossa compaixão

“Demorai-vos aqui”. Isto é, não vos mistureis com os filhos perdidos de Jerusalém, nem com os tíbios que a poucos passos daqui dormem.

“Ficai comigo”. Sim, participai de minha solidão, de minha derrota, de minha dor. Fazei disto vossa glória, vossa alegria, vossa riqueza.

“E adiantando-Se um pouco, prostrou-Se com o rosto em terra” (S. Mateus 26, 39).

Por que “adiantar-Se um pouco”, se queria que os três Apóstolos “ficassem com Ele”? “Ficar com Nosso Senhor” é ficar perto d’Ele em espírito, é estar solidário com Ele. “Fica” com Ele quem está com a Igreja de todo o coração, toda a alma, todo o entendimento. “Fica” com Nosso Senhor quem nas horas de agonia pensa n’Ele e não em si. “Fica” com Nosso Senhor quem pensa só n’Ele, e não no mundo, seu espírito e seus deleites.

Nosso Senhor adiantou-Se só “um pouco”, a “um tiro de pedra”, diz São Lucas (22, 41). Por que “adiantar-se”? E por que apenas fazê-lo “um pouco”? Nosso Senhor queria ser visto, para manter na fidelidade os três Apóstolos escolhidos, queria consolá-los, e consolar-Se sentindo-os perto. Mas era mister que “Se adiantasse”, porque era chegada uma hora de especial gravidade. Ia falar com Deus, e Deus ia falar-Lhe. Assim como no culto judaico o sacerdote entrava só, no Santo dos Santos, assim também Nosso Senhor quis dar sozinho este primeiro passo de sua Paixão.

Temos na alma solidões santas destas, píncaros em que só Deus e nós estamos, e a que nenhum confidente, nenhum amigo, nenhum afeto terreno chega, no qual só admitimos o olhar de nosso diretor? Ou somos destas almas sem reservas nem nobreza, abertas a todos os ventos, a todos os olhares, a todos os passos, como uma vulgar praça pública?

A oração e a invencibilidade do verdadeiro católico

“Prostrou-Se em terra”. Humilhação completa, renúncia total. É a vítima pronta para o holocausto.

Que preparação para a oração! Quando falamos a Deus, “prostramo-nos em terra” antes? Isto é, vamos humildes, prontos a obedecer, desejosos de renunciar a tudo, reconhecendo nosso nada? Ou vamos com reservas, reticências, pontos doloridos em que Deus não nos pode pedir um sacrifício? Quando ouvimos a Igreja, “prostramo-nos em terra”, renunciando a todas as nossas opiniões, a todas as nossas vontades, para obedecer? Junto àqueles que nos edificam, “prostramo-nos em terra” aceitando sua influência? Ou erguemos barreiras, levantamos restrições?

“Orando e dizendo: Pai meu, se é possível, passe de Mim este cálice: todavia não seja como Eu quero, mas sim como Vós” (S. Mateus 26, 39).

Estar prostrado em terra, mas ao mesmo tempo orar! Com o corpo posto no que há de mais baixo, que é o chão, e subindo com a alma até o mais alto dos Céus, que é o trono de Deus! Nisto está a invencibilidade do verdadeiro católico. No auge da aflição, da humilhação, do desamparo, ele tem ainda nas mãos a arma que vence todos os adversários. Quanto isto é verdade nas lutas da vida interior! Sem recursos para encontrar o caminho, ou para resistir, rezamos... e acabamos por vencer. E quanto é verdade no apostolado! Apavora-nos o ímpeto da onda paganizante? Pensamos logo em concessões, nas quais sacrificamos o acidental porque é acidental, o essencial secundário porque é secundário, e por fim o principal... “para evitar mal maior”. Se conhecêssemos a força da oração, se soubéssemos “prostrar o rosto em terra e rezar”, compreenderíamos melhor a eficácia de nossas armas sobrenaturais, o sentido, o valor, a utilidade da intransigência cristã. O Divino Salvador sofreu aqui pelos pessimistas, pelos desanimados, que não têm a noção da força triunfal da Igreja.

Prever a dor, reconhecer a gravidade, aceitar o sacrifício


Presbitério da Igreja das Nações, em Jerusalém. No primeiro plano, a pedra da Agonia sobre a qual Nosso Senhor suou sangue

“Passe de Mim este cálice”. Qual cálice? Era o sofrimento atroz, esmagador, injusto, que se aproximava e Jesus antevia. Neste passo, o Divino Mestre padeceu pelos que pecam por otimismo, pelos que, colocados diante de perspectivas de luta, de angústia, de dor, praticam a política do avestruz e entendem que “vai tudo muito bem”. Prever a dor, preparar-se corajosamente para ela, é alta, altíssima virtude. E isto, quer se trate de nossa vida particular, quer da causa da Santa Igreja. Neste momento em que Ela é tão combatida, não tenhamos a estultice de dizer que vai tudo bem. Reconheçamos a gravidade da hora, olhemos varonil e cristãmente para as ameaças do futuro, com ânimo resoluto e confiante, prontos a reagir pela oração, pela luta, pela aceitação plena do sacrifício.

Foi o exemplo que o Divino Mestre nos deu. Retirou-Se de todos para, face a face com Deus, medir em toda a extensão o oceano de dores que vinha sobre Ele, e tomar atitude diante dessa perspectiva.

Que atitude? “Se é possível, passe de Mim este cálice: todavia não seja como Eu quero, mas sim como Vós”.

Duas súplicas aí se contêm. Numa, o Homem-Deus pede que a dor dele se afaste “se é possível”. Noutra, a aceita caso não seja possível evitá-la.

Atitude santa, sem teatralidade nem vanglória. A dor causa naturalmente pavor ao homem, e Nosso Senhor, que é não só verdadeiro Deus mas ainda verdadeiro homem, tinha pavor da dor. Pediu pois que, “se possível”, fosse ela afastada. Evitar a dor é legítimo, sábio, santo. Mas evitá-la a qualquer preço, não: só “se possível”.

A civilização perece por falta do espírito de sacrifício


Paixão de Nosso Senhor –– Hans Memling, (séc. XV), Galleria Sabauda, Turim (Itália)

“Se possível”: o que quer dizer isto? Se diante daquela súplica humilde de um Justo esmagado pela antevisão da dor a vontade divina pudesse mostrar-se exorável, afastando o sofrimento, que assim fosse. Mas se, pelo contrário, afastar aquela dor era introduzir uma modificação nos planos da Providência, com diminuição da glória de Deus, e do bem da Igreja que seria fundada e o das almas, então era melhor sofrer tudo.

“Se possível”... sublime condicional, que o século não conhece. E por isto o mundo inteiro está em crise, em transe, em agonia. Bens da terra, riqueza, glória, saúde, formosura, tudo isto é bom na medida em que lhe sobreponhamos a vontade de Deus. Mas se é preciso renunciar a tudo, porque em virtude desta ou daquela circunstância interior ou exterior “não é possível” ter estas coisas sem desagradar a Deus, então façamos a renúncia completa. Se todos os homens pensassem e sentissem assim, seria outro o mundo! É por falta desta condicional, na qual está contida toda a ordem e todo o bem, que a civilização vai perecendo.

“Não seja como Eu quero, mas sim como Vós”. Palavras sobre as quais assenta toda a vida da Igreja, das almas e dos povos. Palavras santas, doces, duras e terríveis, que o homem de hoje não quer entender. Definição perfeita da obediência, dessa obediência que desde Lutero cada vez mais o mundo odeia.

Sim, faça-se a vontade de Deus e não a minha: cumprirei os Mandamentos e não seguirei meus caprichos, ainda que a mim se afigurasse preferível outra doutrina. Obedecerei a todos os que exercem sobre mim um legítimo poder, porque representam a Deus; e por isto farei a vontade deles, e não a minha.

Meu Jesus, como explicar, à vista disto, que ainda se diga que fostes um revolucionário, e que viestes trazer à Terra a Revolução?

Jesus consolado para suportar a dor insuportável

Depois disto, há um silêncio. Os Evangelhos não nos contam o que foi respondido, nem o que Jesus disse a essa resposta. Para que dizê-lo? E com que palavras? Provavelmente na Terra só uma pessoa viu tudo, soube tudo, adorou tudo: Maria Santíssima, presente sem dúvida em espírito a tudo, e de tudo participando.

O tema é alto demais para que interpretemos esse silêncio, que nem os Evangelistas quiseram romper. Peçamos à Medianeira de todas as graças que nos inicie no recolhimento da vida interior e nos mistérios inefáveis desse momento de silêncio.

Jesus aceitou. “Apareceu-Lhe então um Anjo do Céu que O confortava. E posto em agonia orava com mais instância. E veio-Lhe um suor como gotas de sangue que corria até a terra” (S. Lucas 22, 43-44).

Começou assim a Paixão. Jesus previra a dor e a morte, e as aceitara. A simples previsão do inevitável O colocava diante de um cúmulo de tormentos acabrunhador.

Mas “um Anjo O confortava”. Sim, sua súplica humilde fora ouvida. Deus Lhe dava forças para vencer o tormento invencível, suportar a dor insuportável, aceitar com conformidade a injustiça inaceitável.

Se compreendêssemos isto! Os Mandamentos nos parecem por demais pesados, ruge em nós o vento dos apetites desregrados e das tentações diabólicas. Se compreendêssemos que esta é a hora de Deus, se “orássemos com maior instância”, se aceitássemos a visita do Anjo que nos conforta! Sim, porque também para nós o Anjo vem sempre, desde que rezemos. Ora é um movimento interior da graça, ora é um bom livro, ora um amigo que nos dá um bom exemplo ou um bom conselho. Mas nós não rezamos. Resultado, caímos.

Quem reza se salva; quem não reza se condena

Na Agonia o Anjo veio, como fruto da oração. Recebida sua visita, Nosso Senhor continuou a orar: sim, rezar mais insistentemente é o grande segredo da vitória. Quem reza se salva, quem não reza se condena, dizia Santo Afonso de Ligório. E como tinha razão! Jesus suou sangue. O Sangue Redentor correu pela pressão da dor moral. Pode-se dizer que era sangue do Coração. Que magnífico tema para os devotos do Sagrado Coração.

Suar sangue é o extremo da dor. É o ponto mais alto da pressão do sofrimento moral sobre o corpo. Dir-se-ia que Nosso Senhor estava suportando tudo quanto podia em matéria de sofrimento. Entretanto, nem sequer o primeiro passo da Via Sacra estava dado.

Como explicar esta resistência incomparável? Seu martírio começava onde o de outros chega ao auge.

É que “um Anjo do céu O confortava”, e “Ele orava mais insistentemente”...

Oh, valor do sobrenatural! E nós ousamos dizer que é por falta de forças que capitulamos na vida interior ou nas lutas do apostolado!

Nosso Senhor sofria, os Apóstolos dormiam... e nós?


La Grande Pietà Ronde - Jean Malo, (séc. XV), Museu do Louvre, Paris

Três vezes disse o Senhor o seu “fiat” [faça-se] (cfr. S. Mateus 26, 39-44). E depois de cada uma, veio a seus discípulos. Da primeira vez, “achou-os dormindo” (S. Mateus 26, 40). E lhes recomendou: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é enferma” (S. Mateus 26, 41). Mas eles não fizeram caso. Por quê? Tinham sono. Um sono feito de dois excessos opostos: de um lado o desespero, de outro a presunção.

— O desespero: diante da derrota humana de Jesus, seus sonhos de grandeza terrena estavam desfeitos. O que lhes restava? Aquelas trevas, aquela solidão, aquele chão duro e vulgar em que estavam. A carreira cortada, oh dor das dores! Sob o peso desta dor, a única coisa a fazer era dormir.

— A presunção: entretanto, tinham-se como fortes. Haviam lutado tanto, certamente seria ofensivo duvidar de sua força. E, convictos de sua resistência, despreocupados por sua perseverança, “matavam o tempo” dormindo.

 

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