|
Os
holandeses, tendo lutado contra os luso-brasileiros em escaramuças
diversas, com grande poderio os surpreenderam num matagal de tabocas (espécie
de bambu muito espinhoso), querendo acabar de vez com sua reação.
Mas os nossos heróis lhes fizeram face e o combate foi renhido de parte
a parte. Dada a inferioridade numérica, e sobretudo de munições,
os insurretos foram perdendo terreno e começaram a desfalecer. Foi então
que um sacerdote, que estava com uma imagem de Cristo crucificado, fez uma
patética preleção pedindo ao Senhor que, pelo seu Sangue,
pelas angústias e dores de Maria, “não atentasse para nossos
pecados, merecedores de eterno castigo, senão para Seu amor e misericórdia,
e que não permitisse que os inimigos de Sua santa Fé, que tantos
agravos lhe tinham feito, profanando Seus templos e despedaçando as
sagradas imagens dos Santos, triunfassem do seu povo católico, que estava
pelejando por Sua honra; e que, pois a empresa era Sua, nos desse vitória
contra aqueles tiranos hereges, para que o mundo soubesse que aos que pelejavam
por a honra de Deus, não lhes faltava o divino favor e adjutório.
[...] Todos prometeram cilícios, disciplinas, jejuns, romarias e esmolas;
e o Governador João Fernandes Vieira, como não é menos
cristão que bom e valoroso soldado, prometeu de levantar duas igrejas,
uma a Nossa Senhora de Nazaré, e outra a Nossa Senhora do Desterro”.(3) Nossa Senhora com o Menino
socorre
os católicos
|
Henrique Dias ferido em Porto Calvo |
Fortalecidos por um espírito sobrenatural, os nossos bravos atacaram o inimigo de tal modo, que Fernandes Vieira teve que deter seus guerreiros, tal o ardor com que se entregaram ao ataque. Entretanto, tendo acuado o inimigo, este voltou-se contra os agressores com grande ímpeto, o que mudou outra vez a sorte da batalha. Foi aí que Fernandes Vieira, vendo o perigo, gritou: “Valorosos portugueses: viva a Fé de Cristo. A eles, a eles”. O padre Manuel de Morais, erguendo a imagem de Cristo, pediu a todos que rezassem uma Salve Rainha à Mãe de Deus, pedindo-lhe auxílio. “E em dizendo todos em alta voz ‘Salve Rainha, Madre de Misericórdia’, se viu logo o favor da Mãe de Deus, porque o inimigo se começou a retirar descomposto e ir perdendo terra a olhos vistos, e os nossos começaram a gritar ‘Vitória, Vitória’, e acometeram com tanto ímpeto, que o desalojaram e deitaram fora do campo, ficando a gloriosa vitória alcançada pelos merecimentos da Virgem Maria Mãe de Deus”.(4)
No dia seguinte, os católicos ouviram dos holandeses aprisionados este
impressionante testemunho: “viam andar entre os portugueses uma mulher
muito formosa com um menino nos braços, e junto a ela um velho venerando,
vestido de branco, os quais davam armas, pólvora e balas aos nossos
soldados, e que era tanto o resplendor que a mulher e o menino lançavam,
que lhes cegava os olhos e não podiam olhar para eles de fito a fito.
E que esta visão lhes fez logo virar as costas e retirar-se descompostamente”.(5)
O mesmo fato é narrado por Frei Manuel Calado. Aí se fundou a
vila de Vitória de Santo Antão, em honra do ancião que
com a Virgem aparecera.
Batalha de Guararapes |
No mesmo ano João Fernandes Vieira participou ainda da batalha de Casa Forte; e nos anos de 1648 e 1649, das duas batalhas dos Guararapes. Na primeira delas, que se deu no dia 19 de abril, domingo da Pascoela e festa de Nossa Senhora dos Prazeres, Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros, auxiliados por Felipe Camarão comandando seus índios, e Henrique Dias os seus negros, levaram à vitória as hostes católicas, apesar da desproporção de 2.200 homens para 7.400 hereges holandeses.
Na segunda batalha dos Guararapes, que se deu no dia 19 de fevereiro de 1649, a desproporção era menor, se bem que considerável: 5.000 holandeses contra 2.600 luso-brasileiros, índios e pretos. Nela morreram 2 mil holandeses e apenas 47 coligados. Mas entre estes estava o heróico Henrique Dias, que deu assim a sua vida em defesa da Religião e da Pátria.
Batalha de Guararapes, (detalhe) - Óleo de Victor Meirelles |
As perdas das duas batalhas, que somavam quase 5 mil homens, fizeram ver aos protestantes vindos da Holanda que estava custando muito caro a invasão e conquista de nossa terra.
Em 1654 João Fernandes Vieira tomou os fortes de Salinas e Altenar, enquanto o inimigo abandonava os de São Jorge e da Barreta.
Enfim, os holandeses retiraram-se definitivamente do Brasil. E a 27 de janeiro desse mesmo ano assinaram a capitulação da Campina do Taborda, pela qual deveriam entregar Recife e todas as fortalezas que ainda lhes restavam. E João Fernandes Vieira tomou posse de Recife em nome de Sua Majestade, o Rei D. João IV de Portugal. Ficava assim o Brasil definitivamente livre dos hereges que tentaram várias vezes assenhorear-se de parte de nosso imenso território.
Oficiais holandeses são aprisionados pelas forças luso-brasileiras |
João Fernandes Vieira foi recompensado pelo Rei Dom João IV com os cargos de governador da Paraíba (1655-1657) e de capitão-geral de Angola (1658-1661). Em 1672 foi nomeado administrador e superintendente das fortificações de Pernambuco e capitanias vizinhas, até o Ceará.
Esse grande herói de nossa Pátria faleceu em 1681 em Olinda. Por sua relevante participação na Insurreição Pernambucana, foi escolhido como um dos patriarcas do Exército Brasileiro.
_________________
Notas:
1. Frei Manoel Calado, O Valeroso Lucideno e triunpho da liberdade, Edições Cultura, São Paulo, 1943, tomo I, p. 318.
2. Texto: Colaboração do Cel. Rosty/COTER. http://www.exercito.gov.br/05Notici/VO/175/tabocas.htm
3. Frei Manoel Calado, Id., Ib., tomo II, p. 12.
4. Id. Ib., p. 14.
5. Diogo Lopes Santiago, História da Guerra de Pernambuco, Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, Recife, 1984, p. 258.
Veja:
http://www.catolicismo.com.br/