Nossa Senhora com a cabeça inclinada


23/04/212

Carlos Eduardo Schaffer
Correspondente em Viena

Este curioso título foi atribuído a um quadro milagroso da Virgem Santíssima exposto numa igreja da capital austríaca e objeto de profunda devoção popular

“Unsere Liebe Frau mit dem Geneigten Haupt!” (Nossa Senhora com a cabeça inclinada). Assim é conhecido em toda Áustria o quadro milagroso encontrado em Roma (1610) pelo carmelita descalço, venerável Frei Domingos de Jesus, em meio a escombros de uma casa abandonada. Ele o compraria para a sua Ordem — da qual mais tarde foi superior geral (1617-1620) – e há mais de 200 anos é venerado na igreja dos carmelitas, no bairro vienense de Döbling.

Após encontrar o quadro, o religioso levou-o para sua cela, limpou-o e passou a venerá-lo. Certa vez em que se ajoelhou diante dele para pedir um favor a Nossa Senhora, percebeu que ainda havia pó. Limpou-o então imediatamente com um pano, dizendo para consigo: “Ó Virgem Pura! Não há nada no mundo digno de tocar vosso rosto para limpá-lo. Mas, uma vez que não tenho nada de melhor que este pano, aceitai assim a minha boa vontade”.

 

O primeiro milagre

 

Então viu que a cabeça da imagem, antes ereta, inclinou-se em sinal de gratidão por esse ato de amor, permanecendo nessa posição. Ao mesmo tempo, ouviu as seguintes palavras de Maria: “Não temas, meu filho, porque tua intenção foi bem recebida, e como recompensa pelo amor que tens para com meu Filho e para comigo, pede uma graça”.

Imediatamente Frei Domingos pediu que um benfeitor falecido fosse livrado do purgatório. Maria prometeu atender a seu pedido, desde que mais algumas missas fossem celebradas por aquela alma. Depois de alguns dias, a Mãe de Deus lhe apareceu com aquela alma redimida.

O religioso pediu ainda à Virgem Santíssima que todos aqueles que venerassem com devoção aquela imagem fossem atendidos misericordiosamente. A Santíssima Virgem lhe respondeu. “Todos aqueles que Me venerarem com devoção diante deste quadro e procurarem em mim o seu refúgio, atenderei seus pedidos e lhes concederei muitas graças; mas ouvirei especialmente aqueles que pedirem consolo e salvação para as almas do purgatório”.

Esta promessa lhe foi feita em Roma em 1610. Em seguida ele colocou o quadro para veneração pública na igreja de seu mosteiro – o Maria della Scala.

 

O quadro chega a Viena

 

Tendo-se tornado conselheiro de Fernando II (1629–1630), Imperador do Sacro Império, Frei Domingos passou a residir em Viena, onde faleceu em 16 de fevereiro de 1630. Enterrado na igreja dos carmelitas de Leopoldstadt, próxima do centro, seu corpo foi transferido para o mosteiro carmelita de Döbling, bairro mais afastado.

Frei Domingos contou ao imperador a história do quadro e dos milagres operados pela intercessão de Nossa Senhora com a Cabeça Inclinada — como a devoção tornou-se doravante conhecida. O soberano pediu à Ordem do Carmo – da qual era grande benfeitor – que o quadro fosse enviado a Viena, o que realmente aconteceu um ano após a morte do religioso. Passou então a ser venerado na capela do Hofburg, o palácio imperial, e tanto Fernando II como sua piedosa esposa Eleonora lhe tinham profunda e terna devoção.

Em uma nova manifestação milagrosa, a Santíssima Virgem prometeu ao imperador: “Eu protegerei sempre a Casa d’Áustria com minha intercessão junto a Deus e a elevarei em seu poder enquanto ela permanecer piedosa e me for devotada”. Alguns historiadores contam que esta revelação foi feita pela Mãe de Deus ao imperador quando este consagrou a Casa d’Áustria e seu império à Imaculada Conceição, em cuja homenagem mandou erigir um grande monumento que ainda hoje pode ser visto na praça Am Hof, na capital austríaca.

Após a morte da imperatriz Eleonora, ocorrida em 1655, o quadro foi levado para a igreja dos carmelitas em Leopolstadt, ali permanecendo até 1901. Foi então transferido para o novo convento da Ordem em Döbling, onde se encontra atualmente. Essa devoção acompanhou e confortou a Imperatriz Zita (1892-1989) em todas as suas viagens e fases da vida.

Durante as duas guerras mundiais, essa devoção foi de enorme alento para os austríacos. O povo afluía constantemente e em grande número ao Santuário de Döbling. Em três ocasiões, durante a primeira guerra, o quadro foi levado em procissão por aproximadamente 50 mil fiéis até a catedral de Santo Estêvão.

Frei Domingos de Jesus

Nascido na Espanha em 16 de maio de 1559 e batizado com o nome de Domingos Ruzzola, entrou cedo para a Ordem dos Carmelitas Descalços, reformada recentemente pela grande Santa Teresa. Dotado de dons proféticos, curou doentes e chegou até a ressuscitar mortos. Favorecido pelo discernimento dos espíritos, lia as consciências. Os Papas Clemente VIII, Paulo V, Gregório XV e Urbano VIII convocaram-no para Consistórios e o consultavam com frequência sobre importantes problemas da Igreja.

Em 1620, na Boêmia, por ocasião da Guerra dos Trinta Anos, o venerável Frei Domingos desempenhou, juntamente com Maximiliano, duque da Baviera, o conde Charles Bonaventure de Longueval e o conde de Bucquoy, atuação semelhante à do célebre Frei Marco d’Avino no cerco de Viena de 1683: coligou as forças católicas e assistiu aos soldados em suas necessidades, inspirando-lhes as virtudes cristãs e a coragem na luta. Deu também larga contribuição para a importante vitória da Liga Católica na batalha de Weissen Berg, perto de Praga, e previu a morte de Gustavo Adolfo II – o rei da Suécia que assolou a Europa de 1630 a 1632, infligindo grandes reveses aos católicos e tratando os vencidos com extrema crueldade.

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Revista Catolicismo

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