Auto-retrato filosófico de Plinio Corrêa de Oliveira


22/07/2004

Plinio Correa de Oliveira

Dentro da perspectiva de Revolução e Contra-Revolução , o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante e espantoso, apocalipticamente trágico, do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo.

A evidência dos fatos aponta, pois, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. Depois dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a ”fumaça de Satanás” [*], que se vai dilatando dia a dia, com a terrível força da expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo de ”autodemolição” , do qual falou Paulo VI[**].

[*] Cfr. alocução de 7 de dezembro de 1968.

[**] Cfr. alocução de Paulo VI de 29 de junho de 1972.

Nota da redação — Também João Paulo II, em diversas ocasiões, tem-se referido aos problemas do mundo moderno e a sua relação com a tempestade que se abate sobre a Santa Igreja. Muitos destes problemas, afirma o Papa, incluem a difusão de ”verdadeiras heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões”  (Alocução de 6 de fevereiro de 1981, in Insegnamenti di Giovanni Paolo II , Libreria Editrice Vaticana, 1981, vol. IV, 1, p. 235).

Ficava assim delineada a situação da III Revolução, como ela se apresentava pouco antes do 20° aniversário da publicação de Revolução e Contra-Revolução .

Entretanto, esse panorama não seria completo se se negligenciasse uma transformação interna na III Revolução: é a IV Revolução que dela vai nascendo.

Como é bem sabido, nem Marx nem a generalidade de seus mais notórios sequazes viram na ditadura do proletariado a etapa terminal do processo revolucionário. Na mitologia evolucionista inerente ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução  não terá termo. Da Iÿ20Revolução  já nasceram duas outras. A terceira, por sua vez, gerará mais uma. E daí por diante...

Não é impossível prever, por ora, dentro da perspectiva marxista, como será a IV Revolução . Ela deverá consistir, segundo os próprios teóricos marxistas, na derrocada da ditadura do proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual — dizem os comunistas — o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e fraternidade até aqui insuspeitável.

Como? – É impossível não perguntar se a sociedade tribal sonhada pelas correntes estruturalistas não dá uma resposta a esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Em tal coletivismo, os vários eus  ou as pessoas individuais, com o seu pensamento, sua vontade e seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem — segundo eles — na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.

A Parte III de Revolução e Contra-Revolução  termina com considerações sobre essa IV Revolução nascente.

Metamorfose do comunismo rumo à sociedade autogestionária

A década seguinte, dos anos 80, não se encerraria sem que os prognósticos feitos na Parte III de Revolução e Contra-Revolução  recebessem uma extraordinária confirmação nos fatos.

Não conseguindo esconder mais seu estrondejante fracasso econômico, bem como o desumano cerceamento de liberdades legítimas, a Rússia soviética optou por admitir o fato desinibidamente diante do mundo. E assim, depois das convulsões geopolíticas espetaculares que se seguiram aos programas liberalizantes da glasnost  (1985) e da perestroika  (1986) desencadeados por Gorbachev, o regime soviético se esboroou (1989-1991) e parece desde então evoluir para um modelo menos distante do que vigora no Ocidente.

Essa transformação coloca um problema estratégico novo para os não comunistas, pois parece conter um apelo: assim como se dissolveu a estrutura granítica do comunismo, torne-se também o Ocidente menos rígido em sua aplicação dos princípios da propriedade privada e da livre iniciativa, aceitando dar passos decisivos na direção do socialismo. Desse modo, Ocidente e Oriente convergirão para um ponto intermédio — não necessariamente a meio caminho, e possivelmente bem mais próximo do comunismo que do capitalismo — e estará encontrada uma solução definitiva para a paz mundial.

Quantos no Ocidente não se têm deixado seduzir por esta perspectiva! Quantos não são propensos a dizer: é melhor aceitarmos um regime mais igualitário, com menos liberdade civil e econômica, a fim de evitarmos que a situação na Rússia retroceda, os comunistas retomem o poder e volte a nos importunar o terrível espectro do holocausto nuclear, do qual milagrosamente nos livramos!

A essa ponderação cabe responder que as guerras são castigos pelos pecados dos homens. A aceitação de um regime antinatural e contrário à Lei de Deus, como é o comunismo, ainda que algum tanto mitigado, constitui enorme pecado que, desdobrando inevitavelmente seus efeitos maléficos, só pode acarretar a ruína e a infelicidade dos homens.

Assim, face ao esfacelamento do império soviético, no Ocidente os espíritos mais argutos se perguntam o que isso tudo tem de autêntico, de consistente, de irrefragável, que autorize esperanças solidamente fundadas. E embora não faltem otimistas pressurosos de abrir os braços de par em par para tais perspectivas enganadoramente alvissareiras, a prudência recomenda muita circunspecção diante da enigmática retração do comunismo, que muito bem pode não ser mais do que uma metamorfose para atingir a meta última deste, que é a sociedade autogestionária.

Advertiu-o honestamente  o próprio Gorbachev, em seu ensaio propagandístico Perestroika — Novas idéias para o meu país e o mundo [*]: ”A finalidade desta reforma é garantir .... a transição de um sistema de direção excessivamente centralizado e dependente de ordens superiores para um sistema democrático baseado na combinação de centralismo democrático e autogestão”.  Autogestão esta que, de mais a mais, era ”o objetivo supremo do Estado soviético” , segundo estabelecia a própria Constituição da ex-URSS em seu Preâmbulo.

[*] Ed. Best Seller, São Paulo, 1987, p. 35.

Todas estas considerações encontram-se mais amplamente explanadas na edição atualizada de Revolução e Contra-Revolução  publicada em 1992 [*].

[*] A Parte III de Revolução e Contra-Revolução , acrescida pelo Autor de alguns comentários, foi publicada no Catolicismo  n° 500, de agosto de 1992.

Edições atualizadas da obra se sucederam na Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Espanha (todas em 1992), nos Estados Unidos (1993), no Brasil (1993), no Peru (1994) e na Romênia (1995).

Se o Brasil não conheceu a desgraça da pulverização agrária, deve-o a RA-QC

É o momento de mencionar algumas realizações contra-revolucionárias de envergadura, levadas a cabo pelas TFPs nos respectivos países.

Em 1960, fervilhava no Brasil uma agitação agrária... quase toda ela urbana! Uma propaganda sabiamente orquestrada nas grandes cidades procurava fazer crer que todo o nosso mundo rural estava a ponto de explodir em virtude do descontentamento da classe dos trabalhadores manuais. Segundo se dizia, para desarmar a efervescência das massas rurais — prevenindo assim uma hecatombe — impunha-se fazer uma Reforma Agrária. Esta consistiria fundamentalmente em que o Poder Público expropriasse a preço vil os latifúndios improdutivos, em vista de distribuir terra aos pequenos agricultores. O próprio dinamismo do espírito igualitário que animava os agro-reformistas levá-los-ia entretanto a eliminar progressivamente todas as grandes e médias propriedades, transformando nossa estrutura rural numa imensa contextura de pequenas propriedades de dimensão familiar. Foi quando veio a lume o livro Reforma Agrária — Questão de Consciência . Obra de grande porte, exigia um trabalho de equipe. Foi assim que redigi a primeira parte do livro, submetendo-a depois à consideração de dois ilustres prelados, Dom Antonio de Castro Mayer, então Bispo de Campos, e Dom Geraldo de Proença Sigaud, então Bispo de Jacarezinho, depois Arcebispo de Diamantina, para que fizessem a revisão do texto, sob o ponto de vista especificamente teológico. A segunda parte, de natureza técnica,  ficou a cargo do economista Luiz Mendonça de Freitas [*].

[*] Reforma Agrária — Questão de Consciência  teve dez edições, nos seguintes países: Brasil (2 edições em 1960, uma em 1961 e outra em 1962), Argentina (1963), Espanha (1969) e Colômbia (3 ed. em 1971 e uma em 1985), num total de mais de 41 mil exemplares.

A obra teve uma acolhida muito favorável nos meios rurais e foi objeto de manifestações de aplauso da parte de governadores, deputados estaduais e federais, senadores, centenas de prefeitos, câmaras municipais e entidades de classe.

Os mesmos autores publicamos em 1964 a Declaração do Morro Alto , programa positivo de Reforma Agrária[*].

[*] A Declaração do Morro Alto  teve duas edições em português. Com a transcrição em Catolicismo , sua tiragem totalizou 32.500 exemplares.

No seu conjunto, essas obras constituíram ao mesmo tempo uma franca e enérgica defesa do princípio da propriedade privada, negado mais ou menos veladamente pelo agro-reformismo socialista e expropriatório, bem como uma afirmação da função social do referido princípio, para a correção de abusos e falhas existentes em nossa situação rural.

Reforma Agrária — Questão de Consciência  deu origem a polêmicas que alertaram a opinião pública para os verdadeiros objetivos das reformas de estrutura então preconizadas pelas correntes de esquerda, e desse modo contribuiu para a formação do clima ideológico e psicológico que cortou o passo à instalação da república sindicalista então desejada pelo Presidente João Goulart.

Inegavelmente, se nosso País não conheceu a desgraça da pulverização de sua estrutura agrária num número incontável de minifúndios de baixa produção, deve-o em muito larga medida a esse livro.

Acordo com o regime comunista: para a Igreja, esperança ou autodemolição? – Carta de louvor de Congregação da Santa Sé  

Entretanto, de minhas obras, a que teve maior divulgação foi incontestavelmente – A liberdade da Igreja no Estado comunista, que, nas últimas edições, saiu com o título de Acordo com o regime comunista: para a Igreja, esperança ou autodemolição? [*]

[*] Este ensaio, publicado pela primeira vez em 1963, teve dez edições em português: Brasil (1963, 7 ed. em 1965, 1967 e 1974); onze em espanhol: Brasil (1963 e 2 ed. em 1964), Chile (1964), Espanha (2 ed. em 1970, 2 ed. em 1971, e outras 2 ed. em 1973) e México (1965); cinco em francês: Brasil (1963, 1964, 1965) e França (1975, 1977); uma em alemão (1965); uma em húngaro (1967); quatro em inglês (1963 e 3 ed. em 1964); duas em italiano (1963 e 1964); e duas em polonês. As edições nestes últimos cinco idiomas foram todas publicadas no Brasil. Essas sucessivas edições atingiram o total de mais de 163.500 exemplares.

Além disso, o trabalho foi transcrito na íntegra em 40 jornais ou revistas do Brasil, Alemanha, Angola, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México e Portugal.

A obra foi prestigiada por uma carta de louvor da Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades da Santa Sé, em data de 2 de dezembro de 1964, assinada pelos Cardeais Pizzardo e Staffa.

Repercutiu, este estudo, para além da cortina de ferro. O semanário católico -esquerdista “Kierunki” e o mensário “Zycie i Mysl”, ambos poloneses, o atacaram violentamente. Zbigniew Czajkowski, colaborador destes dois periódicos, publicou extensos e indignados artigos contra meu ensaio. Respondi através das páginas de Catolicismo . Daí se seguiu uma polêmica, na qual interveio em apoio à minha obra o periódico “L’Homme Nouveau”, de Paris, pela pena de seu colaborador Henri Carton, enquanto “Témoignage Chrétien” — turbulento órgão comuno-progressista francês — se colocava ao lado de Czajkowski.

Assim como Reforma Agrária — Questão de Consciência , também A liberdade da Igreja no Estado comunista  foi escrita em função de um problema concreto. Já então se ia generalizando entre os católicos — astutamente propagada — a idéia de que o único obstáculo que os impede de aderir ao regime comunista é que este costuma tolher o exercício do culto. A partir dessa noção gravemente incompleta, foi fácil aos marxistas, simulando respeito à liberdade da Igreja, obter decidido apoio de certos católicos para um hipotético comunismo que deixasse inteira liberdade aos diversos cultos.

Essa manobra propagandística poderia render — e rendeu — ao comunismo incalculáveis benefícios. Pois, na medida em que influenciasse as massas católicas, enfraqueceria ou anularia a oposição que os 800 milhões de católicos existentes no mundo haveriam de fazer ao comunismo.

Em meu ensaio, procurei frustrar essa manobra já em 1963, mostrando que é intrínseco ao regime comunista eliminar ou mutilar muito gravemente o instituto da propriedade privada, o que, por sua vez, é contrário à doutrina da Igreja. Para ser fiel à sua missão, a Igreja não poderia deixar de combater tal regime, ainda que este lhe reconhecesse inteira liberdade de culto. Tal combate criaria um inevitável conflito entre os católicos e qualquer Estado comunista.

Baldeação ideológica inadvertida e diálogo denuncia manobra para debilitar a resistência ideológica dos católicos

Também Baldeação ideológica inadvertida e diálogo alcançou ampla repercussão[*].

[*] Publicado pela primeira vez em 1965, teve treze edições, sendo cinco em português (4 ed. em 1966 e uma em 1974), uma em alemão (no Brasil, em 1967), seis em espanhol (uma na Argentina em 1966, duas na Espanha em 1966 e 1971, uma no México e duas no Chile em 1985) e uma em italiano (1970). Foi transcrito em nove jornais ou revistas do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos e Portugal, atingindo o total de 136.500 exemplares.

Este ensaio mostra por que forma os comunistas se valem do diálogo para debilitar sub-repticiamente a resistência ideológica de seus adversários, e especialmente a dos católicos. O assunto aí versado é por demais sutil e extenso para sequer ser resumido aqui. Uma das observações mais importantes — de ordem prática — contidas nesse estudo é que, por meio do falso diálogo, os comunistas não visam tanto alcançar dos católicos que renunciem explicitamente à Fé, mas que aceitem uma interpretação relativista e evolucionista da doutrina católica. Assim, corrompe-se a Fé, que por sua natureza exige uma certeza incompatível com o estado de dúvida inerente ao relativismo e ao evolucionismo. E, alcançado esse resultado, não é difícil à propaganda comunista induzir os católicos a esperar do diálogo com o comunismo o encontro de uma síntese... a qual bem poderia ser, em último termo, o mesmo comunismo com outra roupagem.

A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos Bispos silenciosos

Em 1976 publiquei o livro intitulado – A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos Bispos silenciosos[*]. Constitui esse meu trabalho uma análise marcadamente doutrinária das posições então assumidas pela Hierarquia eclesiástica no Brasil, em favor do comunismo. A pregação claramente pró-comunista de D. Pedro Casaldáliga, Bispo de São Félix do Araguaia, por exemplo.

[*] Dado a lume em junho de 1976, o livro alcançou quatro edições (duas em 1976 e outras duas em 1977), num total de 51 mil exemplares, vendidos por sócios e cooperadores da TFP em 1.700 cidades de 24 Unidades da nossa Federação.

No livro, mostro a imensa transformação que se operou no seio do Episcopado nacional, adversário ferrenho do marxismo até os idos de 1948. Precisamente por essa época, começou uma rotação para a esquerda do Episcopado. A nova orientação recebeu grande impulso quando, em 1952, com a formação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), D. Helder Câmara foi eleito o primeiro secretário-geral desse organismo. Os frutos dessa rotação foram os padres de passeata , as freiras de mini-saia  e os líderes católico -esquerdistas, que apoiaram as agitações comuno-janguistas.

Após 1964, deu-se um expurgo de comunistas em numerosas instituições brasileiras. Os meios católicos, entretanto, permaneceram incólumes. Com isso, as tendências esquerdistas se refugiaram neles. E, assim protegidas, medraram de modo impressionante, a ponto de mais de uma figura do Episcopado nacional se ter transformado — por ação ou por omissão — em valioso esteio dos que se esforçam para comunistizar o Brasil.

Formulei no livro um apelo veemente aos “Bispos silenciosos” para que falassem. Eram eles numerosos e dispunham de prestígio suficiente para salvar o Brasil se simplesmente dessem ampla difusão entre os fiéis dos numerosos documentos pontifícios sobre o assunto.

Paralelamente a essa triste evolução do Episcopado, mostrei a luta — toda ela legal e doutrinária — que, em prol da Igreja e da civilização cristã, vem sendo travada por um grupo de católicos fiéis que se reuniu inicialmente em torno do “Legionário”, depois de Catolicismo , e hoje, já muito avolumado, constitui a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade — TFP.

Esse trabalho eu o quis publicar como estudo introdutório a uma condensação de La Iglesia del Silencio en Chile — La TFP proclama la verdad entera , brilhante best-seller  publicado em janeiro de 1976 pela TFP chilena. Pois existe entre ambos os trabalhos íntima afinidade. Tal afinidade resulta da semelhança de situações entre o Brasil e o Chile no que concerne à atuação da Hierarquia eclesiástica. Lá, ainda mais claramente do que aqui, a maior parte do Episcopado (e não apenas setores dele, como no Brasil) trabalhou pela comunistização do país, como prova com abundância de documentos o referido livro chileno. E isto tanto pela preparação da ascensão de Frei, o  Kerensky chileno [*], e posteriormente de Allende à presidência da República, quanto pelo apoio que os Bispos deram a este último durante seu nefasto governo, como ainda pelo esforço que desenvolveram após sua queda, no sentido de fazer retroceder o país irmão para as malhas do comunismo.

[*] Sobre o sentido comunistizante da atuação do ex-presidente do Chile, Eduardo Frei, e da Democracia-Cristã chilena, veja-se Frei, o Kerensky chileno , de Fábio Vidigal Xavier da Silveira. Publicado pela primeira vez em 1967 por Catolicismo  (n° 178/179), teve dez edições, sendo duas em português, sete em espanhol (três na Argentina, uma na Colômbia, uma no Equador e três na Venezuela) e uma em italiano. Teve, também, duas tiragens em Catolicismo  (Brasil) e três em “Cruzada” (Argentina). O diário “La Verdad”, de Caracas, o transcreveu na íntegra, e excertos apareceram em outros três jornais da mesma cidade. O total dessas edições é de 128.800 exemplares.

É bem de ver que, com a ascensão de João Paulo II ao sólio pontifício, em 1978, todo este processo passou por importantes transformações, as quais implicam em ajustes não pequenos nesse quadro, para se descrever como ele atualmente se apresenta.

Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI

Para o estruturalismo , cujo expoente máximo foi o filósofo Lévy Strauss, a sociedade indígena, por ter ”resistido à História” , é a que mais se aproxima do ideal humano. E é para essa forma de vida pré-neolítica que — segundo essa corrente filosófica — devemos retornar.

Se causa espanto que filósofos ateus defendam teses tão absurdas, mais ainda deve estarrecer que missionários católicos propugnem como padrão perfeito de homem o índio selvático, e como modelo ideal de vida humana a vida na taba.

Não obstante, é bem isto o que acontece. Uma nova corrente missiológica, com livre trânsito nos meios eclesiásticos, sustenta que a civilização atual deve desaparecer, para dar lugar ao sistema de vida tribal. Institutos como a propriedade privada, a família monogâmica e o casamento indissolúvel devem ser eliminados. A figura clássica dos missionários — evangelizadores e civilizadores –, como o foram os Padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, deve ser abandonada. A nova corrente missiológica, porque não quer civilizar, não quer catequizar. E porque não quer catequizar, também não quer civilizar.

Insinua-se nessa conduta uma questão tática. Se a missiologia atualizada  elogiasse a comunidade de bens implantada nos países comunistas, expor-se-ia inevitavelmente a críticas e refutações incômodas.

Esquivando o perigoso assunto, os novos missionários fazem a apologia do sistema de vida tribal: exalçam nele a comunidade de bens, a inexistência de lucro, de capital, de salários, de patrões e empregados, de “privilegiados” e “marginalizados”, de “opressores” e “oprimidos”, como dizem. E assim aproveitam a ocasião para invectivar a propriedade privada, em vigor nas nações civilizadas do Ocidente.

O efeito concreto dessa tática é que o elogio torrencial da nova missiologia à propriedade comum, vigente nas tribos indígenas, nem de longe levantou entre nós a celeuma que a apologia direta das sociedades comunistas de além cortina de ferro certamente despertaria.

Não cabe entretanto a menor dúvida. É bem uma sociedade de tipo comunista que transparece nessa visão idílica do índio selvático, apresentada pela neomissiologia como ideal para o homem do século XXI.

O maior problema suscitado por esses delírios não está nos próprios missionários nem nos índios, cumpre repetir. Está em saber como, na Santa Igreja Católica, pôde esgueirar-se impunemente essa filosofia, intoxicando seminários, deformando missionários, desnaturando missões. E tudo com tão forte apoio de certa retaguarda eclesiástica.

Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI  foi o livro que publiquei no final de 1977, para dar a conhecer aos brasileiros essa faceta inesperada da crise na Igreja.

Catolicismo  o publicou em primeira mão (n° 323/324, de novembro-dezembro de 1977). Ainda em dezembro de 1977, a Editora Vera Cruz lançou a primeira edição em forma de livro, e depois mais seis edições, totalizando 76 mil exemplares.

O católico pode e deve ser contra a Reforma Agrária

A CNBB constitui um órgão oficial do Episcopado brasileiro. Assim sendo, seus pronunciamentos devem ser recebidos normalmente pelos católicos como representando o pensamento da Igreja.

Não podia portanto deixar de causar a maior perplexidade entre os fiéis a publicação, ao final da reunião plenária do provecto organismo eclesiástico, em 1980, na habitual fazenda de Itaici, do documento Igreja e problemas da terra  (IPT). Verdadeiro manifesto agro-reformista, o documento da CNBB procurava suscitar a ofensiva geral do País contra as propriedades rurais grandes e médias. Ademais, sugeria às autoridades governamentais medidas concretas para a imediata efetivação da partilha rural.

Este fato criava gravíssima questão de consciência, não apenas para os fazendeiros, mas também para todos os católicos formados segundo a doutrina tradicional da Igreja, bem como para os homens de pensamento e de ação existentes no País. Essas três amplas e ponderáveis categorias de brasileiros muito explicavelmente poderiam se perguntar qual a efetiva validade magisterial de tantas afirmações, novas e singulares, contidas no IPT. E qual a autoridade dos argumentos doutrinários do IPT para lançar tão hirsutas e explosivas asseverações.

Estava no papel da TFP romper o silêncio e dar a resposta a essas perguntas. Ela o fez por meio do livro Sou católico: posso ser contra a Reforma Agrária?  (1981, 360 pp., 4 edições, 29 mil exemplares), de minha autoria, em colaboração com o Master of Science  em Economia Agrária (pela Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA), Prof. Carlos Patricio del Campo.

O livro demonstra que o católico deve ser fiel, acima de tudo, aos ensinamentos tradicionais do Supremo Magistério da Igreja. Ora, um exame detido do IPT leva à conclusão de que não há consonância entre aqueles ensinamentos e a Reforma Agrária preconizada pelo documento da CNBB. Em conseqüência, o católico anti-agro-reformista tem não só o direito, como também o dever de continuar contrário à Reforma Agrária.

A parte econômica da obra prova que o documento da CNBB apresenta graves lacunas, ao traçar o panorama da situação econômica da lavoura brasileira e ao apontar para a “solução”: a Reforma Agrária que pleiteia. Assim, ainda que o pronunciamento episcopal não fosse objetável do estrito ponto de vista da doutrina católica, seria inaceitável do ângulo econômico.

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